contrassenso

16 06 2009

“vai do gosto de cada lady
rasgar sua pele com diamantes
ou adorná-la com carvão

vai da pressa do freguês

de cada um de seus chiliques
e dos tropeços encenados

de aviões de guardanapo
de cada promessa clandestina
de um retorno debruçado no guidão

vai ao gosto de bloody
mary vai embora
vai, pois, mas não volta

vai-de dia”

Lá estava eu sentada em frente àquele notebook, perdida e com medo. Igualzinho quando eu quero escrever e não sei o que. A página em branco do Word já me causa calafrio, faz palpitar o coração e roer unhas. Vocês devem ter um pacto: tu e esse vazio maldito da página em branco. Ali estava eu sentada na tua cadeira, no teu computador, em meio aos livros e aos teus cigarros. Nada pessoal, mas era tudo muito feio. Nada parecido com o que eu deveria querer para mim e eu me sentia completa.

Fechei todas as janelas na tela – porque já não posso mais nem pensar em fechar as que abri aqui dentro de mim, para que me invadas. Eu nunca ousaria invadir tuas senhas, tuas cartas virtuais, teus segredos. Tenho medo do que poderia vir a ler e temo mais ainda por saber demais de ti.

Pânico, angústia, palpitação. Revolta do suco gástrico do estômago pra garganta sem parar. É assim que bate esse pavor de ficar viciada em ti e de repente me ver transformando os copos em cinzeiros,  amanhecendo bêbada às quartas-feiras e achar que é muito normal não dormir para escrever. Perder o medo de ti, da vida, das coisas sujas e imundas e assim, me deixar afogar numa bagunça que eu sei, eu tenho certeza, que não dou conta de arrumar.

Não quero uma casa de tijolos avermelhados, cozinha com móveis modulados e diarista que vem três vezes por semana. Eu até toparia tudo isso, mas se fosse contigo, sabe? Porque a gente não teria a casa de tijolos avermelhados, nem os móveis modulados. Talvez um sofá caro, quem sabe. A verdade é que eu pouco (ou nada, e me dói admitir isso) mudaria do que é teu.

O teu caos é sob medida pra minha falta de lucidez. Eu passaria um dia todo ouvindo tuas histórias e velaria teu sono lendo teu livro de poesias. “Teu” livro de poesias. Sabe que soa como uma cantiga encantadora e barata dizer isso? O TEU livro. Filha da classe média que sou, de gente letrada, com inteligência á flor da pele e gênio forte, cultivei uns gostos estranhos pelas letras e outras cositas mais.

Secretamente, bem baixinho comigo, sussurro que não há nada como deitar com um escriba, dormir com um jornalista e debater com um advogado. E eu vou morrendo aos poucos, desmazelando, desfazendo por dentro, porque a minha derrota és tu. É seres o escriba, o poeta, o jornalista, o porra-louca, o caótico, o absurdo, o advogado, o detentor do saber barato e de todas as leituras que eu queria ter, o dono de teorias de mesa de bar. Grande fazedor de cicatrizes profundas e pontos inestimáveis. És tu.

Eu saí do notebook a tempo de não ver nada. E vou sair da tua vida da mesmíssima forma que entrei: num bar pé sujo em meio a conversas atravessadas. É uma pena para gente e uma vitória para mim. Juntos somos demais contrassenso para estar e me sinto tão pequena perto de ti, tão despreparada para qualquer fuga ou furacão. Eu sei, eu sinto: expulsarias-me na primeira tormenta. Doeria tanto não poder nem sonhar em limpar tua bagunça.

Dúvida, de Ricardo Santos

Dúvida, de Ricardo Santos

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